O universo da saboaria artesanal e natural tem nos encantado cada vez mais desde que começamos a produzir os sabonetes. Pois, junto com outros cosméticos naturais, complementam externamente os cuidados que procuramos também manter com a alimentação. Através deles, percebemos um universo de possibilidades infinitas e de conhecimento enriquecedor. Dentre estudos, leituras de livros de várias partes do mundo, cursos, e conversas com artesãos e profissionais brasileiros, percebemos a diversidade de produtos, com características particulares, que é possível criar a partir dos mesmos ingredientes. Notamos também que cada artesão – como um artista – acaba se personificando em seus produtos com uma assinatura e identidade únicos. Todo o desenvolvimento de seu trabalho acontece de uma forma muito natural a partir de diferentes necessidades, conhecimentos, preferências, olhares e saberes.

O cheiro, a cor e a textura atraem a atenção de uma pessoa a partir da sensibilidade e de referências individuais. Seja para o artesão, seja para quem compra, cada um desenvolve as preferências e os 5 sentidos a partir da aprendizagem, dos hábitos e do convívio com o mundo externo ao qual é exposto desde a infância. Somam-se a isso tudo a influência cultural, das memórias, de sua própria história de vida, e sensibilidade/percepção tornando a empatia inevitável. Desde criança qualquer pessoa desenvolve o paladar a partir do da mãe ou de quem cozinha. Enxergar nuances de cores vêm da percepção da luz, e fatores geográficos, como a latitude e o clima, são determinantes nesse desenvolvimento. Por exemplo, descobriu-se que na Rússia, a população de algumas vilas desenvolveu a capacidade de ver mais tons de azul do que de outras partes do mundo por causa da neve e da incidência da luz na região. O mesmo acontece com a audição. O meio – urbano ou rural – os sons que se escuta formam uma gama de repertórios e de percepções auditivas diferentes em cada um. O sentido tátil recebe um estímulo constante através da pele. É ela que percebe até o fio de cabelo que cai sobre os ombros e, intencionalmente ou não, ela aprende a entender texturas agradáveis, sensações de frio, e assim por diante. O olfato, apesar de ser o sentido mais primitivo e o menos desenvolvido no ser humano se comparado ao de outros mamíferos, também define suas preferências a partir da exposição, criando a memória olfativa. Todo cheiro é associado à um lugar, uma memória, a uma emoção – boa ou ruim – e a imagens. Foi nesse contexto que, cercada de referências pessoais e familiares, nasceu a identidade da Aidée Simples e Natural. A forte influência oriental de nossa história que educou nossos 5 sentidos, preferências e gostos desde a infância, foi determinante para que se materializasse na suavidade da textura, na sutileza do aroma, na ênfase aos benefícios de todos os ingredientes e até nas embalagens de nossos produtos.

 

A partir de nossa necessidade e afinidade, fundamentamos o desenvolvimento de nossos produtos em bibliografias e referências de cosmetólogas japonesas atuais. Muitos de seus sabões (e cosméticos) foram inicialmente feitos a partir de receitas europeias e americanas e – entre erros, acertos e adaptações – passaram a ser configurados para a pele e sensibilidade japonesa. No Japão, apesar de notarmos que produtos de influência ocidental têm mais appeal, é perceptível o resgate de ingredientes e cuidados da pele de tempos remotos que algumas cosmetólogas vêm fazendo. O uso de dokudami, de komenuka e de algas são alguns exemplos. Vemos um hábito muito comum na sociedade japonesa, que é o do não desperdício (mottainai, em japonês), se repetir também na produção dos cosméticos. Encontramos, por exemplo, cosmetólogas que dividem ingredientes da própria cozinha (daidokoro, em japonês) com o momento do banho, compartilhando seus benefícios na alimentação e na pele de uma maneira muito natural. E, embora, se voltarmos no tempo, vejamos que muitas das ‘receitas mães’ originadas no ocidente também se utilizavam do mesmo constume, é muito clara que a intenção é evitar a compra desnecessária de um mesmo ingrediente só porque o uso é diferente.

Outra característica com a qual nos identificamos é a suavidade dos aromas que os tornam não-invasivos aos que estão ao redor. Por isso, notamos que levam muito pouco óleos essenciais. Na grande maioria, utilizam em torno de 0,5%, garantindo uma margem de segurança significativa no seu emprego. Os benefícios vêm pela repetição do uso gradual, ou seja, aos poucos. Aliás uma forma muito eficaz de desfrutar da aromaterapia segundo escreveu Robert Tisserand – considerado uma das maiores referência na aromaterapia – em um de seus livros. Para relativizar, os produtos americanos/europeus levam mais de 3% de óleos essenciais nos sabonetes em barra, por exemplo.

Para os japoneses também é muito importante o frescor dos ingredientes, assim como o é na culinária. Por isso seus produtos devem ser utilizados num prazo de 3 a 12 meses no máximo. Isso quer dizer que quanto mais fresco melhor. Num país onde é hábito ter as refeições baseadas nos ingredientes disponíveis em cada uma das 4 estações do ano, com os cosméticos não poderia ser diferente. Não é regra, mas encontramos alguns artesãos que produzem sabonetes para cada época do ano. O de saquê é feito aos invernos, quando acontece sua produção. O de chá verde é feito na primavera, quando ocorrem as colheitas em maio. Além do frescor dos ingredientes, os benefícios de cada produto coincide com as necessidades da pele daquele período. O de saquê é muito hidratante e ‘aquece’ a pele. O de chá verde é detox, ajuda no equilíbrio da gordura da pele, exatamente quando o verão desponta no país. É claro que no Japão, onde as estações do ano são bem definidas, as necessidades individuais se tornam muito mais perceptíveis e, às vezes, maiores, mas, ao final, não são diferentes de nós, brasileiros.

 

A textura delicada de seus produtos também vêm da relação entre os ingredientes. Nos sabonetes, por exemplo, as proporções de óleos saturados e insaturados é bastante diferente das fórmulas americanas/europeias. É dessa forma que conseguimos assegurar que o sabonete natural e artesanal, feito a partir do zero, não agrida a pele de nosso filho com dermatite atópica em hipótese alguma, mesmo com um ph entre 9 a 10 (leia sobre ph, aqui). Preferimos manter o poder condicionador acima do de limpeza, pois esta não necessariamente deva implicar na retirada total do sebo natural da pele, que é seu protetor.

Para concluir, percebemos que a compra de um produto, assim como na criação e desenvolvimento, é uma questão de afinidade, identidade e empatia. Não existe produto ruim nesse universo da cosmetologia artesanal e natural, quando for bem feito. Existem produtos diferentes um do outro. Portanto, se você não se identificar com algo, busque o que sente confortável para o seu olfato, ou o que agrade aos seus olhos. A sensação na pele no momento do toque da espuma também é tão importante quanto a sensação no pós lavagem. A pele não deve, em hipótese alguma, ficar ressecada ou repuxada. Essas sensações não enganam, como o é com a comida. A vontade de ingerir um alimento, como disse Nilu Lebert em sua entrevista (clique aqui para ler), vêm da necessidade do corpo por aquela substância. Portanto, escutar o corpo, a intuição, o nariz e os olhos é muito importante. É o momento em que acontece a empatia, é quando é possível se sentir identificado no produto e, quem sabe, até criar um vínculo afetivo?

Referências:

Sobre o olfato, aqui. Bibliografias japonesas: ホノ(石鹸工房 HonoBono-Lab). おうちでかんたん! 暮らしの手づくり石鹸レシピ帖 | 梅原 亜也子. ハーブアロマを楽しむ夏ラルソープのつくりかた | 前田京子.お風呂の愉しみ.