Beber saquê é bom, mas os sabonetes feitos com a bebida também são bons?!?!?!

Sim, mesmo para nós, descendentes de japoneses, parecia uma loucura transformar uma bebida razoavelmente cara em sabonetes. Mas, ao estudar, pesquisar e usá-lo, percebemos que suas propriedades vão muito além de uma bebida de paladar leve e de inúmeras nuances de sabor.

O saquê sempre fez parte dos ingredientes que utilizamos na cozinha. Temperar carnes, cozidos e sopas com o saquê, dá um upgrade na maciez das carnes e no sabor da comida. É a leveza que aguça o paladar e dá um tom aromático ao prato. Porém, não conhecíamos o saquê como bebida com muita profundidade.

Nosso contato começou de fato em 2014, quando participamos de dois jantares de harmozinação da bebida promovidos pela sommeliêr de sake Sonia Yuki Yamane. Foi quando começamos a compreendê-lo.

UM POUCO SOBRE A HISTÓRIA DO SAQUÊ

O sake é uma bebida de origem sagrada, onde, em resumo, foi utilizada para que um deus derrotasse a grande serpente de oito cabeças e casar-se com a princesa que estava prestes a ser sacrificada. O saquê também sempre esteve ligado a cerimônias xintoístas no Japão como oferenda aos deuses, sendo muito utilizado em rituais, casamentos, inaugurações e festas de colheita.

A bebida fermentada nem sempre foi feita com o arroz. Existem registros de mais de 3.000 anos quando houve o uso de amoras e morangos silvestres para a sua confecção. Provavelmente um dia, ao acaso, alguém esqueceu o arroz mofando e o processo de fermentação natural aconteceu resultando num mingau. Este, pelo teor alcóolico, provocava uma mudança no estado de espírito e passou a ser apurado, além de consumido, até chegar no saquê que conhecemos hoje.

UM POUCO SOBRE A BEBIDA SAQUÊ

No Japão antigo, as bebidas alcóolicas eram chamadas de nihon-shu (日本(Nihon)=Japão – 酒(shu)=sake). Apesar da denominação ainda ser utilizada hoje, houve a popularização da palavra saquê pelos estrangeiros quando se referiam à de arroz, e assim foi assimilada como a denominação da bebida.

Atualmente existem vários tipos de saquê, que são definidos conforme o polimento do arroz (mínimo de 50% do grão), teor alcóolico, pasteurização, adição de álcool etílico, diluição de água, filtragem etc. Também são classificados entre doce, suave e seco. Uma classificação que inicialmente nos trazia uma certa confusão, pois é muito diferente do vinho, por exemplo. Um saquê pode ser doce e seco ao mesmo tempo, dependendo de sua acidez e densidade.

E finalmente existem as categorias de saquê que são definidas conforme o aroma e a complexidade do sabor. Daiginjô e Ginjô são as categorias super premium e premium respectivamente. E são, segundo Sonia, os saquês que geralmente possuem um aroma frutado e sabor mais delicado que as demais. Em seguida, vem o Tokubestu-shu que são saquês consumidos mais no dia a dia em pequenas doses. E, por último, o Futsû-shu que são os saquês comuns de mesa, mais baratos e populares, geralmente são aquele garrafões de 1,8l.

Inclui-se aqui também o Amazake que é uma bebida mais densa, com baixo teor alcóolico e feito com a borra de saquê, geralmente consumido bastante quente nos invernos. Mas falaremos dele e de seu sabonete (clique aqui para conhecer o sabonete) num post posterior! 🙂

UM POUCO SOBRE AS PROPRIEDADES DO SAQUÊ PARA A BELEZA DA PELE

Segundo pesquisas, o saquê possui vários benefícios para a pele. Durante nossos testes e estudos, vimos artigos relatando que foi constatado no Japão que as mãos dos produtores da bebida que manuseavam o koji com o arroz durante o processo de fermentação, tinham as mãos sem manchas e bastante rejuvenescidas se comparadas aos seus rostos. A própria Sonia atesta esse fato, que vivenciou a produção do saquê quando esteve no Japão. Lá, existem também lugares onde visitantes podem tomar um banho de ofurô com a bebida. Claro, sem deixar de lado os vários produtos de beleza feitos com saquê ou com a borra da bebida (sakekasu): máscaras, sabonetes, além de tônicos e cremes.

O arroz, em grande parte, é o responsável por essas propriedades, por conta de um de seus componentes: a Gamma oryzanol que é seis vezes mais eficaz que a vitamina E como antioxidante. Além disso, o processo de fermentação do koji (fungo Aspergillus oryzae) com o arroz resultam em ácido kójico que é um clareador da pele. Isso quer dizer que a bebida e seus derivados possuem propriedades que podem ajudar no seu rejuvenescimento. Talvez, por isso, as gueixas utilizassem a bebida na pele mantendo sua beleza tão perene.

MAIS SOBRE O SABONETE DE SAKE AIDÉE

Em Maio’16 fizemos a primeira barra de sabonete de sake. Para confeccioná-los, Sonia indicou inicialmente 3 tipos: Josen Suave, Junmai e Junmai Ginjô. Todos eles resultaram num sabonete hidratante e harmonizador da cor e do tom da pele. Apesar de não ser regra para todos, pois cada pessoa e cada pele tem sensibilidades diferentes, sente-se uma proteção, como se um delicado filme se formasse sobre a pele. Ah! E nem o aroma nem o cheiro do saquê ficam sobre a pele. Somente os efeitos. 🙂

O que inicialmente seria um teste, acabou resultando num de nossos sabonetes preferidos. Chegamos ao 4º lote e não vamos parar por aqui! Sendo que em cada lote será utilizado diferentes saquês, com diferentes aromas. É incrível como cada tipo de bebida resulta num sabonete com aroma totalmente diferente do outro!

Nesse mês, no dia 1º, comemorou-se o dia mundial do sake. Infelizmente não pudemos produzir o sabonete a tempo para a data, mas comemorativamente ao mês, produzimos o Sabonete de Sake Taisetsu Ice Dome (Junmai Ginjo). Feito com um saquê produzido dentro de um iglu evitando sua oxidação. Para saber mais sobre este sabonete, clique aqui.

SAKE é a transcrição em letra romanizada do ideograma 酒. Como a palavra já consta no vocabulário português, o correto é que se escreva SAQUÊ na nossa língua. Para os sabonetes, preferimos manter a escrita original para reforçar as características japonesas, uma vez que utilizamos a bebida importada de lá.

Sonia Yuki Yamane é sommeliêr de saquê formada pelo SSI (Sake Service Institute), consultora da Haru Consultoria, autora do blog ‘Sake, por favor’ (clique aqui para accessar) e atualmente está no badalado restaurante Kinoshita. Quem quiser conhecer seu trabalho é só ir lá e solicitar uma indicação de saquê para degustar com o prato! Depois de uma experiência sensorial com Sonia, a visão desse universo nunca mais será a mesma. Vale a pena! 😉